Os pés do professor de Nagiane

A leitura de romances policiais pode se tornar uma atividade muito útil para quem está aprendendo a valorizar os detalhes percebidos numa pessoa ou num acontecimento sobre o qual seja preciso escrever ou falar.

Por isto, alguns advogados cultivam o hábito deste tipo de leitura. Eles sabem que um detalhe pode arruinar ou fortalecer um raciocínio.

Mas não apenas nos textos argumentativos os detalhes precisam ser considerados com atenção, em virtude de suas variações de significados. Em qualquer texto eles têm grande importância. Aquilo que uma pessoa diz ou escreve é sempre um acúmulo de detalhes. Cada frase que uma pessoa produz implica incontáveis detalhes ligados a muitos fatores: a seu estado de espírito, às circunstâncias externas a ela no momento de criar a frase, aos objetivos que ela quer atingir, a seus recursos de expressão etc.

Quando alguém analisa uma única frase tem de considerar o contexto em que ela foi produzida, a sua organização interna, o que ela transmite ou deixa de transmitir etc. Então, pode-se dizer que o universo da linguagem verbal é um universo de detalhes. De pequenos ou pequeníssimos detalhes. Por isto, é tão difícil mostrar a alguém que criou uma frase onde ela pode ter falhado ou acertado. Quisera que os elementos empregados na construção de um texto fossem tão facilmente perceptíveis como os elementos empregados na construção de um prédio, ou, quem sabe, de uma simples caixa de sapato! Quem o tivesse escrito poderia compreender rapidamente o sentido de uma crítica quando a pessoa encarregada de fazê-la apenas apontasse com o dedo e dissesse: “aqui está ótimo, mas aqui precisa ser melhorado”. Isto não acontece porque um texto – por mais curto que seja – resulta sempre de um processo mental complexo do qual ele é apenas uma parte.

Em tal processo está incluído o uso mais ou menos livre que cada pessoa pode fazer de sua capacidade de percepções de detalhes, com seus variados significados.

Foram os detalhes que tornaram confessional e irreverente o texto produzido por Nagiane Gabriela, aluna de Pedagogia, de Castanhal, no interior da Amazônia. Antes de escrevê-lo, a aluna foi estimulada a usar livremente sua capacidade de percepção num esforço para colocar em palavras os detalhes que pudesse ter apreendido na observação de um de seus ex-professores.

Nagiane optou por escrever sobre um dos seus professores do curso de vestibular, por uma razão particular: sentira-se apaixonada por ele.

Como ele era? Nagiane o descreve como “determinado, inteligente, charmoso e muito brincalhão”. A esta imagem, porém, Nagiane acrescenta outros detalhes. Usava sandálias parecidas com as dos surfistas. Seus dedos dos pés ficavam descobertos. “E eu achava lindo aquele pé tão delicado e limpo”, comenta ela, encantada.

Nagiane passava horas a fio escrevendo cartas para o professor. Cartas que jamais entregava por medo da reação dele.

Um dia, porém, num intervalo entre as aulas, o professor se dirigiu a ela, dizendo que precisava combinar algo, na saída da escola, naquele dia. Nagiane tremeu “da cabeça aos pés”. Ficou muito ansiosa. Não conseguia prestar atenção à aula dele, se indagava sobre o que ele queria, e, por fim, rezou para que fosse esquecida. Mas quando cruzou o portão da escola, lá estava o professor, “encostado no seu carro, com um sorriso enorme”. Cuidadoso, ele apenas pediu que Nagiane telefonasse, assim que chegasse em sua casa. E revelou: queria conversar sobre uma cartinha escrita por ela – uma que caíra de seu caderno e alguém entregara a ele. Mais agitada ainda, ela o obedeceu. E não deixou de observar que ele atendeu ao telefone, logo após o aparelho ter emitido seu primeiro sinal de chamada. Contudo, fisicamente distante, ela se encorajou e contou tudo o que sentia.

O desenlace viria a seguir: “Fui ouvida com atenção. Porém, minha paixão não tinha como ser correspondida, pois, como ele explicou, sua opção sexual era outra. Ele era um homossexual, casado com outro professor, confessou”.

A esta altura do texto, faltava apenas o fecho. Nagiane, criou-o recuperando um detalhe, ao qual, porém deu nova e amarga significação:

“Fiquei frustrada durante um bom tempo. E entendi o porquê dos pés tão limpos e delicados, como pés de uma mulher”.

 

 

 

O convite de Otto Lara Resende

Quando nos ocupamos com as maneiras como as pessoas usam as palavras, temos de repetir até a náusea, como diziam os latinos através da expressão ad nauseam, que todos somos capazes de criar textos interessantes.

Não só quando escrevemos, mas, igualmente, quando falamos algo. Temos de fazer isto porque a dimensão repressiva do nosso processo de adaptação social nos leva a julgar perigoso aquilo que percebemos, quando usamos com maior intensidade nossa capacidade de percepção. É, por causa desta intensidade perceptiva, não podemos nos exprimir por meio de um texto já conhecido e socialmente aceito.

Observamos isto nas situações mais banais. Por exemplo, quando dois amigos se encontram. Comumente, eles, nestas ocasiões, se limitam a produzir textos orais com obviedades gritantes, como: “Você está bem bronzeado!”. Ou: “Você emagreceu”. É certo, no entanto, que eles poderiam criar textos de maior valor expressivo, pois, todos nós temos uma apuradíssima sensibilidade, capaz de captar e entender o significado da grande variedade de emoções que nosso interlocutor exprime por meio de gestos, olhares, risos, silêncios etc.

Somos capazes de captar e entender aquela variedade de emoções até mesmo  através apenas da movimentação dos músculos da face de nosso interlocutor, portanto, ainda que ignoremos todas as suas outras formas de expressões verbais e não-verbais. E isto acontece, embora as expressões faciais durem somente frações de segundo e apareçam engatadas umas nas outras, como lembram os especialistas em Comunicação Não-verbal.

Imediatamente, captamos e compreendemos, inclusive, as emoções que o interlocutor experimenta em relação a quem fala com ele.

Por esta razão, quando alguém se limita a produzir oralmente um texto sobre intensidade de bronzeamento de pele e mudança de peso, que se assemelhe, com certo incômodo, a um registro que espelhos e balanças também podem fazer, com certeza, estará deixando de usar, de modo apropriado, a amplitude e a profundidade de sua própria capacidade perceptiva..

Este embotamento tão danoso à criação de textos a que nós nos submetemos foi percebido pelo escritor Otto Lara Resende.

Numa crônica intitulada “Vista cansada”, ele diz que nós banalizamos o nosso olhar. Vemos, não vendo. “O campo visual da nossa rotina é como um vazio”.

E há sempre o que ver: gente, coisas, bichos. Mas o hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. E ele acrescenta: “Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença”.

O escritor, então, nos convida a ver aquilo que uma criança vê, pois, ela tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.

Como a criança, conclui Otto, o poeta é capaz de ver o que ninguém vê, por ser tão visto.

Tem razão o cronista. As crianças e os poetas expressam, com palavras, percepções originais, surpreendentes, inesperadas. Estas palavras nos deslumbram porque revelam aspectos mais ricos e interessantes da existência humana do que aqueles costumeiramente mostrados no nosso cotidiano. São palavras que nos obrigam a pensar sobre como experimentamos a vida e como verbalizamos estas experiências. Infelizmente, porém, a mesma sociedade que tolera a livre e criativa expressão verbal das crianças e dos poetas não os leva muito a sério. Quando alguém quer desqualificar as palavras de outra pessoa, diz simplesmente: “Ele é um poeta”. Ou: “Ele é uma criança”.

 

 

 

O texto de Bárbara

Um bom curso de Expressão Verbal, em qualquer área do ensino, deveria começar por dar consciência aos alunos da capacidade que todos temos de observar infinitos detalhes nas outras pessoas.

É algo que pode ser demonstrado através da observação do aspecto físico, aparentemente, a mais simples de se fazer. Este ângulo de observação, de fato, pode ser muito mais rico do que imaginamos porque cada detalhe captado pode ter um significado psicológico tanto para quem o tem, como para quem o observa. De qualquer modo, quando observamos alguém, do ponto de vista físico, levamos em conta os inumeráveis detalhes sobre idade, cor e textura da pele, peso, altura, olhos, peito, barriga, pernas, mãos, pés etc. E, o que é mais curioso, cada detalhe deste, por sua vez, pode ser desdobrado em muitos outros detalhes. Só o cabelo, por exemplo, pode variar quanto à cor, à forma (ondulado, liso, crespo etc), ao comprimento, ao brilho, ao corte e ao penteado. Um dos exercícios de produção de texto mais interessantes que qualquer pessoa pode fazer é exatamente o de verbalizar os detalhes que nota na aparência de alguém. Quem o fizer será recompensado com uma compreensão imediata do quanto a valorização da percepção de detalhes pode melhorar a qualidade de um texto.

Um exemplo do que pode oferecer a prática deste exercício surgiu, inesperadamente, num curso de Engenharia Civil, montado na Amazônia, junto à gigantesca Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Na disciplina de Expressão Verbal – após um rápido treinamento de captação de detalhes, através da observação de pessoas – foi pedido aos alunos que escrevessem sobre alguém a quem estivessem acostumados a observar. E uma aluna, chamada Bárbara Vale, se sentiu motivada para, pela primeira vez, colocar em palavras as observações que fez de sua filha, logo após ela nascer. Vamos resumir o que ela escreveu naquele texto.

A certa altura do texto, Bárbara começa a se referir diretamente à recém-nascida: “Eu a olhava buscando conhecê-la. Era muito pequena e frágil. Sua pele muito branca, e, as bochechas bem rosadas. Meus olhos percorriam cada pedacinho… boquinha, nariz, cabelos, queixinho, os olhos, as orelhinhas”. Em seguida, Bárbara revela o que buscava: “Procurava nela uma extensão de mim. Buscava em tudo dela onde eu estaria”. Aos poucos, se decepciona. “Seus olhos eram grandes, porém, não eram os meus. Nos lábios também não havia sinal de minha herança. O nariz era outro, assim como as orelhas, o cabelo, o queixo, o desenho daquela linha entre a testa e o cabelo, o encontro da orelha com o pescoço, e, as unhas dos pés”. Até que a criança se mexe, e, Bárbara tem novas percepções. “O que vi foi uma delicadíssima e pequeníssima mão que despontou de debaixo de sua manta. Essa sim era minha. Muito frágil, muito menor, mas era a minha mão”. Ali, porém, havia uma descoberta mais importante a ser feita. “Enquanto me buscava nela, acabei colocando-a dentro de mim, e, agora, que ela já estava ali, não precisava, nem queria mais continuar me procurando nela. Ela existia fora de mim e não era um pedaço meu, nem era minha”. Bárbara constata: “Havia algo muito maior do que tê-la para mim ou vê-la como sendo eu”. E conclui: “E desde então a amei. Amei quem ela era e me tornei dela, sua, sempre sua, sua mãe”.

Como demonstra este texto, até numa área como a da Engenharia Civil, na qual se usa fundamentalmente a linguagem numérica, matemática, há pessoas com potencial para criar textos originais, desde que elas aprendam a valorizar, naquilo que escrevem, a sua própria capacidade de percepção.

O mundo que não verbalizamos

Como é o mundo que nós percebemos e raramente verbalizamos porque não queremos nos expor ao perigo do isolamento no qual são deixadas as pessoas consideradas estranhas, esquisitas, inconvenientes?

Como é o mundo que nós escondemos, quando usamos as palavras, para que nossos textos (orais e escritos) nos insiram no seguro (mas pouco criativo) âmbito das “pessoas comuns”?

Este mundo é deslumbrante, surpreendente, incontrolável, imprevisível. É cheio de pequenos detalhes que ampliam os limites conhecidos da experiência humana. E pode nos dar a impressão de chegada a um mundo novo, quando damos uma atenção concentrada a ele.

É um mundo que nos chega através do olfato, pois é abundante de percepções de cheiros muito variados, como os da pizza de manjericão, do vinho, do sexo, das frutas, dos perfumes, das folhas molhadas, do mofo, da floresta, do incenso, do café fumegando.

Um mundo no qual entramos também através do tato, já que temos infinitas percepções, como as provocadas pelo contato da água com nossa pele, quando entramos no mar. Percepções como as de uma massagem em nosso corpo; como as do toque em nossos cabelos por outra pessoa; como as experimentadas numa cama macia ou ao vestirmos uma roupa limpa. E, ainda, as percepções da textura da pele de um bebê. Ou as de um beliscão, uma cutucada, uma simples queimadura de fósforo.

O fascinante mundo sobre o qual silenciamos penetra por nosso corpo, também, pela boca. Quem já não teve a percepção das variações dos gostos: do doce, do azedo, do salgado, do amargo? E as dos alimentos quentes ou gelados. Quem já não teve a percepção do sabor do gengibre ou do tamarindo? E não percebeu a sensação de morder um biscoito crocante? Ou a de um sorvete de chocolate que se derrete junto à língua?

Mas o mundo maravilhoso ausente dos nossos textos penetra igualmente pelos nossos ouvidos, pois temos uma imensa capacidade de registrar percepções associadas a sons. O que não despertam em nós as percepções dos sons de músicas de ninar e as de Natal, por exemplo? Ou as percepções dos sons que associamos a ambientes, como os de elevador, hospital, restaurantes, salas de médicos, casamentos, funerais, cerimônias cívicas e religiosas ou eventos esportivos?

Na infinidade de sons que percebemos há aqueles que mais nos agradam, como os das músicas associadas aos nossos envolvimentos amorosos. E há as percepções dos sons dos instrumentos que amamos: os de corda, os de sopro, ou, os de percussão.

Neste mundo não verbalizado por nós há percepções de sons muito impregnados em nossas vidas, como os da tosse do nosso pai, ou, os de seus passos, ou somente, os sons do balanço das chaves em seu chaveiro.

Por fim, aquele mundo encantador entra por nossos olhos. Quantas percepções não acumulamos sobre as cores das roupas das pessoas? Sobre as diferentes intensidades da luminosidade do céu? E sobre o luar?

De muita experiência perceptiva, portanto, dispomos para a criação de textos originais! Não a usamos por que? Pelo medo de romper a couraça que aprisiona o nosso gênio criador, quando, por comodidade ou insegurança, assumimos o papel (sempre falso) de quem é capaz de produzir textos com qualidade apenas média, mediana, portanto, medíocres.

Por que manter esta mentira?  Por que temer o peso da nossa originalidade?

Criatividade no uso das palavras

Não se pode negar que cada pessoa é única. Somente ela tem experiências e vivências resultantes de sua sensibilidade e a inteligência próprias (e da combinação de ambas).

Experiências e vivências acumuladas num determinado lugar, num certo momento e dentro de seu ambiente social. Portanto, há, é claro, observações sobre a vida, sobre as pessoas ou sobre qualquer assunto que só ela pode fazer. No entanto, poucas pessoas conseguem exprimir sua originalidade através de textos orais ou escritos.

Quem quiser mergulhar profundamente no mundo das palavras para conhecê-las mais, amá-las mais intensamente, e, com isto, tornar seus textos (e sua vivências) mais expressivos, não pode deixar de pensar nesta dramática discrepância. A discrepância entre duas evidências: a de que cada pessoa tem um grande potencial para dizer coisas (oralmente e por escrito) novas e inesperadas e a de que muitos de nós nos exprimimos através de palavras previsíveis, gastas, sem atrativo algum.

Por que isto acontece? Por que não demonstramos naquilo que dizemos (e escrevemos) a criatividade que nossa originalidade nos permite ter?

Quem pensar nisto pode ficar diante de uma conclusão muito incômoda. Talvez, por esta razão, poucas pessoas queiram pensar neste assunto. Assim evitam a angústia que provoca a compreensão de um aspecto da existência humana, dentro da nossa sociedade.

Nesta sociedade, nós sacrificamos criatividade e originalidade para garantirmos adaptação social. Como todos sabemos, um ser humano criativo e original é incontrolável e imprevisível, quando exprime aquilo que percebe. Consequentemente, pode ser visto, na melhor das hipóteses, como excêntrico, extravagante. E, na pior das hipóteses, como alguém desequilibrado, talvez mentalmente doente.

Como ninguém quer isto para si mesmo, tendemos a exprimir (oralmente e por escrito) apenas as nossas percepções que, achamos, podemos exprimir, sem correr risco algum. E o que é pior: escondemos (ou apenas desqualificamos, considerando-as sem valor) as percepções que só nós podemos ter e, que, por isto, mesmo nos distinguem (e talvez isolem) das outras pessoas.

Esta – e somente esta – é a diferença entre nós e os artistas da linguagem. Todos nós temos percepções que ninguém mais tem. Mas somente eles as usam em seus textos. Por exemplo, o poeta (Manuel de Barros) não se importa de parecer louco quando escreve que a lesma ao passar a sua pequena vagina sobre as pobres coisas do chão, deixa risquinhos líquidos. E o letrista (Chico Buarque) se coloca, sem titubear, na pele de um narrador de dez anos de idade para dizer que sua amada é tão perfeita que não tem “sujo atrás da orelha, bigode de groselha, nem calcinha um pouco velha”. Os dois são inconvenientes por escreverem textos assim? Há quem acredite que são. Mas mesmos estas pessoas não podem dizer que os dois também são inconvenientes simplesmente por terem tido aquelas percepções da lesma e do amor infantil. Afinal, quem pode pretender controlar as percepções de alguém?  Temos bilhões de percepções por segundo, através de nossos cinco sentidos, dizem os neurologistas. O máximo, que uma pessoa pode fazer é controlar (e sufocar) a expressão de suas próprias percepções.

 

 

O que revelamos de nós

Todo ser humano tenta controlar a impressão que provoca nas outras pessoas. Procura projetar de si mesmo uma imagem que lhe seja favorável ou conveniente.

E como esta imagem está ligada à nossa aparência física, usamos o nosso corpo como um veículo de mensagens sobre nós mesmos. Temos consciência de que um tipo de penteado, uma marca de óculos, o modelo de uma camisa (ou de uma blusa), podem se transformar em mensagens do tipo: “Eu sou uma pessoa sem preconceitos e quero ser visto (ou vista) assim”, ou “Eu sou uma pessoa conservadora”.  Por meio de outros detalhes – como também sabemos – podemos informar que somos casados (através da aliança no dedo), ou que exercemos determinada profissão (através do anel de formatura), ou ainda, que temos condições financeiras privilegiadas (através de uma joia cara).

Infelizmente, porém, não existe uma relação garantida entre o recurso que uma pessoa usa, conscientemente, e a imagem que ela queira gerar. O relógio que, como supomos, poderia nos tornar mais jovens, pode terminar nos cobrindo de ridículo, se for visto como completamente inapropriado para nossa idade.

A dura verdade é esta: nenhuma pessoa controla inteiramente a imagem que projeta de si mesma. E o que é pior: a todo instante, sem sequer nos darmos conta disto, produzimos sinais que as outras pessoas podem interpretar como indícios daquilo que nós somos.

Por exemplo, podemos apenas desejar boa tarde a alguém e a pessoa a quem nos dirigimos, além de receber nosso educado cumprimento, pode, achar que somos oriundos de determinada região, por causa do nosso sotaque. Isto pode gerar uma imagem favorável ou uma imagem desfavorável. Nosso sotaque pode nos valorizar socialmente se for associado a uma região admirada por seu desenvolvimento econômico ou cultural. E pode nos criar constrangimento, se for associado a uma região considerada atrasada – com justiça ou, somente, por preconceito.

Haverá palavras nossas que – independentemente dos seus significados literais – serão associadas a uma faixa de idade, por isto nos farão parecer mais jovens ou mais velhos. As mesmas palavras, contudo, simplesmente porque as usamos, poderão também levar as pessoas a acreditar que, embora, sejamos velhos, queremos parecer jovens. Ou que, embora sejamos jovens, falamos como velhos.

Mais ainda: nossas palavras – signifiquem o que possam significar, segundo os dicionários – se tornam também sinais de que tivemos muita escolaridade, ou pouca escolaridade. Há expressões verbais que, se as usarmos, nos aproximarão da imagem de refinados universitários. Outras nos dotarão da aparência de pessoas rústicas. E – pior ainda – haverá palavras que nos farão parecer não só rústicos, como pretensiosos (ou ingênuos).

Por fim, quando empregarmos nossas palavras – sejam lá quais forem os sentidos exatos delas -, parecerá às outras pessoas que exercemos um determinado ofício. Por isto,  depois de nos ouvir falar, elas perguntarão: “Você é advogado?”, “Você é policial?”

 

 

Palavras ajudam (e prejudicam)

A imagem que cada pessoa projeta de si mesma, no ambiente social no qual está inserida, é um patrimônio dela.

Um patrimônio que vai sendo construído ao longo de sua existência. Por isto, é defendido por leis internacionais e locais, a começar pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, cujos artigos foram incorporados às leis de muitos países. Este documento de valor universal estabelece, por exemplo, que uma pessoa tem o direito de preservar sua imagem, mesmo quando está sendo acusada de um crime. Sua imagem, neste caso, só pode ser borrada, numa situação muito específica. Isto é, numa situação na qual ela possa se utilizar de todos os direitos de defesa. E possa, ainda, ser julgada por um tribunal independente e imparcial. No Brasil, a própria Constituição Federal determina que a imagem de uma pessoa seja considerada como um bem inviolável. E torna obrigatório o pagamento de indenização para quem não respeitar esta determinação.

Diante disto, duas perguntas se impõem.

A primeira delas: por que a imagem de uma pessoa tem tanto valor? A resposta é óbvia: porque vivemos entre pessoas e só seremos aceitos por elas, só conseguirmos nos mover entre elas, se a imagem que projetarmos de nós mesmos ajudar nesta aceitação e neste trânsito. Uma pessoa com uma imagem que provoque desconfiança ficará isolada no ambiente social. Não terá espaço para seu crescimento individual.

A segunda pergunta: como cada pessoa cria a sua própria imagem? Obviamente que é através de nossos atos. Por conseguinte, uma imagem só ficará definitivamente ligada a uma pessoa, depois que ela morrer e, portanto, não puder mais acrescentar nenhum ato aos que já praticou, capaz de mudar ou reafirmar aquilo que ela foi projetando de si mesma, ao longo de sua vida. São, portanto, nossos atos que desenham nossas imagens pessoais. Atos que – acrescente-se – quase sempre envolvem a necessidade de dizer algo ou de escrever algo, de determinada maneira.

Quando agimos, em geral, falamos. E quando falamos, já estamos agindo. Isto porque nossa vida transcorre em ambientes sociais distintos, e, em cada um deles, assumimos diversos papéis. Afinal, como todos sabemos, a vida social é um grande teatro. No ambiente familiar, obrigatoriamente, teremos de falar como se espera que um pai fale. Ou como um marido fale, ou como um filho. No ambiente profissional, nossas falas (e nossos textos escritos) também já estarão predeterminadas. Teremos de falar (ou de escrever) como um professor, ou como um médico, ou como um bombeiro. Se estivermos preparados para nos  expressarmos verbalmente de maneira adequada, isto nos ajudará a garantir bons desempenhos dos nossos papéis sociais e, portanto, a projetarmos de nós mesmos imagens que nos favorecerão. Se não estivermos, ficaremos ameaçados de sofrermos grandes fiascos.

Com isto, chegamos não a uma descoberta recente na área de Expressão Verbal, mas a uma verdade admitida, hoje, em muitas áreas da atividade humana – inclusive, ou, sobretudo, nas áreas profissionais. Uma verdade que pode ser condensada numa única frase:  o modo como uma pessoa fala e o modo como ela escreve interferem profundamente na imagem que ela projeta de si mesma, em todos os ambientes frequentados por ela. Portanto, afeta – positiva ou negativamente – um patrimônio valiosíssimo seu.

A consequência imediata da admissão desta verdade é a de que todos temos de prestar muita atenção ao modo como estamos usando as palavras, para, com isto, podermos torná-las mais sábias, mais bonitas, mais apropriadas.

Uma conversa fascinante

Um ser humano se forma no convívio que tem com as outras pessoas, se não completamente, pelo menos em grande medida.

E boa parte deste convívio exige interlocução, isto é, conversa. A conversa, por sua vez, impõe a observação do interlocutor. Alguém que fale sem ouvir e perceber a pessoa com quem fala provocará, inevitavelmente, um bloqueio em sua comunicação verbal, portanto, prejudicará aquele seu convívio. É certo, por conseguinte, que todos nós empregamos, diariamente, um tempo considerável na observação das pessoas, em situações nas quais elas falam, ou só para nós em particular, ou para um grupo no qual estejamos inseridos. No entanto, é possível que nunca tenhamos nos conscientizado da variedade de informações que captamos nestas ocasiões, e, só tenhamos disto uma noção intuitiva. E o que é mais curioso: é possível também que nunca tenhamos nos conscientizado da variedade de informações que nós próprios fornecemos, quando falamos a alguém ou a um grupo de pessoas.

Ao ouvirmos uma pessoa falar, podemos, obviamente, captar o sentido das palavras dela. Se a pessoa diz “sim”, sabemos que, em princípio, ela está expressando aceitação. Mas estamos equipados – mentalmente, sensorialmente – para perceber muito mais que isto. Para perceber, por exemplo, se aquele “sim” é convincente ou não. Se ele é dito com entusiasmo ou, apenas, com resignação.

As riquíssimas variações da voz humana transmitem significados que eventualmente podem anular e até contradizer o sentido literal das palavras empregadas numa conversa ou, digamos, numa aula. Um “sim”, surpreendentemente, pode ser ouvido como um “não” – como um “não” claro, óbvio, por causa do tom com o qual ele foi dito. Esses detalhes da comunicação verbal oral é que podem tornar tão fascinante uma simples conversa. Por exemplo, quando perguntamos algo a uma pessoa com a qual temos intimidade, e, portanto, julgamos conhecer bem, podemos achar que sabemos, de antemão, o que ela vai dizer, por supormos que conhecemos seu modo de pensar. Podemos, no entanto, ser surpreendidos, com uma resposta que jamais preveríamos. Não fosse assim, que graça haveria em conviver com as pessoas? Surpreendente ou não, em suas respostas, a pessoa do nosso convívio – como qualquer outra pessoa – responderá sempre com um timbre de voz tão característico dela, que o som de sua voz corresponderá a uma espécie de identidade sonora dela. Aquele timbre nossa mente guardará por muitos anos. Deste modo, ao ouvi-lo, seremos capazes de, imediatamente, reconhecer aquela pessoa, por maior que tenha sido o tempo passado longe dela.

Há vários outros detalhes ligados à voz de uma pessoa que somos capazes de registrar e memorizar. Por exemplo, há pessoas que ouvem, e, ao mesmo tempo, murmuram. Murmuram para encorajar seu interlocutor a continuar falando, por isto produzem ruídos como “hum-hum”. Ou fazem isto apenas para mostrar que aprovam aquilo que está sendo dito.

Outras pessoas respondem a uma pergunta falando pausadamente, depois de se concederem alguns segundos para pensar. Criam intervalos de silêncio mais ou menos prolongados na sua fala. Registramos aquele silêncio, surgido numa conversa, e todos nós temos condições de saber que ele é bem diferente do outro, criado quando uma pessoa se sentiu melindrada apenas porque interrompemos bruscamente uma frase sua.

Não é maravilhoso que todos tenhamos condições de distinguir, numa conversa, as sutis diferenças entre os diversos significados de um simples silêncio?

Todos somos poetas

Usamos, em geral, as palavras com tanta facilidade, espontaneidade e rapidez que deixamos de perceber tudo o que há de maravilhoso – e até espantoso – na comunicação verbal.

Quando, por exemplo, dizemos a alguém uma palavra simples como “casa”, não nos damos conta da complexidade daquilo que acontece. Para que possamos percebê-la, vamos reconstituir, passo a passo, o que desencadeamos ao dizermos aquela palavra. Inicialmente, produzimos – como é óbvio – uma sequência de sons. Estes sons são perfeitamente identificáveis, um a um – os fonemas – e podem ser transcritos por quem tenha algum conhecimento de Fonética.

Ao mesmo tempo, ocorre o seguinte: quem ouve aqueles sons imediatamente os associa a algo, um conceito, visualizável através de uma imagem mental: o conceito de “lugar para morar” e a imagem de paredes, janelas, portas etc. Na emissão desta palavra já se pode perceber a capacidade humana admirável de associar sons com imagens. Uma capacidade que todos temos, embora creiamos que apenas os poetas a possuam e demonstrem isto quando produzem suas imagens, suas metáforas.

O ensino de Expressão Verbal pode tirar muito proveito desta capacidade humana. Permitir que alguém faça a descoberta de que pode criar textos com refinamentos da linguagem poética é uma das experiências mais emocionantes proporcionadas pelo magistério, sobretudo, quando esta pessoa foi sendo convencida, ao longo de sua escolaridade, de não ter nenhuma afinidade com os estudos da linguagem verbal.

É uma descoberta que está ao alcance de quem apenas se disponha a escrever as palavras que lhe venham à mente ao ouvir os sons de uma música. Isto deve ser feito de um modo inteiramente livre, sem a preocupação de dotar o texto de uma organização lógica. Como os sons das músicas – como os das palavras – também pertencem ao universo de uma linguagem, quem fizer isto, se estiver ouvindo uma melodia de um tango, possivelmente perceberá que chegam à sua mente, imagens de casais dançando num salão, ela com o vestido aberto à altura da perna e uma rosa vermelha nos cabelos. Estas imagens estão acumuladas nas nossas mentes e basta que um som qualquer as tragam à nossa consciência para que elas se encadeiem como na projeção de um filme curto.

Dificilmente alguém associará os sons da melodia de um tango a pinguins caminhando nas neves do Antártico. Mas quanto maior for a riqueza de nossa vivência – pelo acúmulo de situações existenciais densas e de leituras-, mais buriladas serão as nossas imagens. Da experiência de criar textos com imagens livres, associadas com músicas resultam – como qualquer pessoa pode verificar – pequenos poemas impressionistas, parecidos com os da poesia chinesa antiga, e, dotados de beleza sutil e inesperada.

Quando puder verificar isto, uma pessoa, certamente, não deixará de se fazer uma pergunta relevante para a vida de muita gente, cuja resposta precisa ser pensada com disponibilidade de tempo e de calma.

A pergunta é esta: se, em geral, todos temos condições de utilizar a linguagem verbal, em toda a sua complexidade, o que significa inclusive que podemos nos comunicar através de imagens, como os poetas, por que tantas pessoas criam resistência ao estudo de sua língua?

A pergunta não pode deixar de ser feita porque a aparente incompatibilidade com os estudos da língua, infelizmente, é vista como sinal de vocação para as áreas mais distantes deles. É lastimável a constatação de que muitas pessoas decidem o rumo que darão às suas vidas influenciadas pela impressão de serem inaptas para os campos de estudos e de atividades profissionais nos quais se utiliza amplamente a linguagem verbal. Embora, contraditoriamente, seja exatamente a linguagem verbal aquela que elas usam todos os dias.